Oratório Digital
Textos

O que são virtudes?

Antes de conhecer cada virtude pelo nome, vale a pena parar numa pergunta mais simples e mais profunda: o que é, afinal, uma virtude? A palavra aparece tanto — virtude da paciência, mulher virtuosa, virtudes cristãs — que muitas vezes a usamos sem saber bem o que ela significa. E entender o que é uma virtude muda a maneira como vivemos: deixamos de pensar a vida boa como uma série de regras a cumprir e passamos a vê-la como uma pessoa a tornar-se.

Uma palavra que significa força

A palavra virtude vem do latim virtus, que originalmente significava força, vigor, excelência — a qualidade do que cumpre bem aquilo a que se destina. Os gregos usavam uma palavra parecida, areté, que se traduz como excelência ou perfeição própria de algo.

Para os antigos, tudo tinha a sua areté: a areté de uma faca é cortar bem; a de um cavalo, correr bem; a de um olho, enxergar bem. Por analogia, a areté — a virtude — de um ser humano é viver bem como ser humano: agir com razão, com bondade, com domínio de si. A virtude, portanto, não é um enfeite moral. É aquilo que nos faz ser plenamente o que somos chamados a ser.

A virtude não acrescenta algo de estranho à pessoa — ela revela a pessoa em sua melhor forma.

Um hábito bom

A definição clássica, que vem de Aristóteles e foi aprofundada por santo Tomás de Aquino, diz que a virtude é um hábito bom. E “hábito” aqui não tem o sentido fraco de “costume” ou “rotina”: é uma disposição estável da pessoa, algo que se torna como uma segunda natureza.

Pense na diferença entre alguém que mente quase sempre, mas um dia diz a verdade por medo de ser pego, e alguém que é honesto — para quem dizer a verdade é natural, quase espontâneo, porque a verdade já faz parte de quem ele é. O segundo tem a virtude da veracidade; o primeiro apenas teve um ato isolado. A virtude está na disposição firme, não no gesto avulso.

Por isso se diz que a virtude torna boa a pessoa e bom o seu agir. Ela não melhora apenas o que fazemos — melhora quem somos. Um homem corajoso não apenas pratica atos de coragem: ele é corajoso, e por isso age bem mesmo quando ninguém o observa.

Como as virtudes se formam

Se a virtude é um hábito, então — como todo hábito — ela se forma pela repetição. Ninguém nasce paciente, justo ou temperante: tornamo-nos assim agindo desse modo, muitas vezes, até que o bom agir se grave em nós.

Aristóteles dizia que nos tornamos construtores construindo e tocadores de cítara tocando; do mesmo modo, tornamo-nos justos praticando atos justos, e corajosos praticando atos de coragem. Cada escolha boa é como um pequeno tijolo: nenhuma decisão isolada constrói a casa, mas é impossível erguê-la sem elas.

Disso seguem três coisas importantes:

  • A virtude custa esforço no começo, porque vai contra inclinações desordenadas; com o tempo, torna-se mais leve e até prazerosa.
  • A virtude pode ser perdida, se deixarmos de exercê-la ou se passarmos a agir contra ela.
  • A virtude cresce: não é tudo ou nada, mas se aprofunda com a prática constante.

O meio-termo

Outra intuição clássica é que a virtude costuma estar num meio-termo entre dois excessos — o que os gregos chamavam de mesótes. A coragem, por exemplo, fica entre a covardia (faltar onde se deveria agir) e a temeridade (arriscar tudo sem critério). A generosidade fica entre a avareza e o desperdício.

Esse “meio” não é uma mediocridade morna nem uma média matemática igual para todos. É o ponto certo para cada pessoa e cada situação — e descobrir onde ele está é justamente tarefa da prudência. Por isso o que é generosidade para um rico pode ser imprudência para quem mal sustenta a família: o meio-termo é medido pela razão, não pela bula.

Virtudes que nós formamos e virtudes que Deus infunde

Até aqui falamos das virtudes que se adquirem pelo esforço humano — as chamadas virtudes adquiridas ou naturais (como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança no plano humano). Mas a tradição cristã reconhece outra realidade: há virtudes que não conquistamos, e sim que recebemos.

São as virtudes infusas, dom de Deus na alma. Entre elas, de modo especial, as três virtudes teologais — fé, esperança e caridade —, que têm Deus como origem e como fim, e que são derramadas no coração pelo Espírito Santo no Batismo. Ninguém produz em si a fé pela simples repetição; ela é graça acolhida.

A graça não substitui o esforço, e o esforço não dispensa a graça: as duas caminham juntas, como a vela que precisa do vento e o vento que move a vela.

Isso explica por que um cristão pode, ao mesmo tempo, pedir a Deus uma virtude na oração e exercitá-la na vida concreta. Pedimos a caridade como dom e a praticamos nos pequenos gestos do dia; pedimos a fortaleza e a treinamos carregando as cruzes de cada dia. Dom e empenho não se opõem.

Por que isso importa

Compreender o que é uma virtude muda o olhar sobre a vida moral. A meta não é apenas “não pecar” nem “seguir uma lista de deveres”, mas tornar-se uma certa pessoa — alguém em quem o bem já habita, alguém que age bem porque é bom, e não apenas porque está sendo vigiado.

Há aqui uma boa notícia escondida: ninguém está condenado a ser sempre quem foi até hoje. Como a virtude se forma com o tempo, sempre é possível começar — uma escolha boa de cada vez. E há também um chamado: o de não nos contentarmos com gestos isolados de bondade, mas de deixar que esses gestos, repetidos e sustentados pela graça, formem em nós um coração novo.


Uma virtude, em resumo, é um hábito bom que torna boa a pessoa e bom o seu agir — algumas conquistadas pelo esforço fiel de cada dia, outras recebidas de Deus como dom. Conhecer o que é uma virtude é o primeiro passo; o segundo, mais difícil e mais belo, é deixar que elas cresçam em nós, até que o bem deixe de ser algo que fazemos e passe a ser algo que somos.